terça-feira, 9 de novembro de 2010

Demorei anos

Eu demorei anos para descobrir que saída de emergência não é atalho. E que válvula de escape deixa escapar muita coisa em nós. Mas nunca vai ser suficiente para permitir que fujamos de nós mesmos. Eu demorei anos para descobrir que lutar contra o fluxo natural das coisas é como subir uma escada rolante que está descendo. Quando se é mais novo, tem uma certa graça. Quanto mais o tempo passa, mais se pode machucar.

Eu demorei anos para descobrir que saber que Papai Noel não existe não é a descoberta mais difícil do mundo. Ninguém nunca disse que coelhinhos da páscoa não existiam com tanta cerimônia e suspense e isso nunca fez de você uma pessoa melhor. Um dia você descobre que as pessoas não são tão boas assim. Aí sim, a coisa piora para seu lado.

Um dia eu descobri que uma estrela em uma árvore de natal é um pequeno detalhe. Tão pequeno e aparentemente insignificante, mas sem ela, nem o pisca pisca tem a menor graça. Aí eu cheguei à seguinte conclusão: também demorei a perceber que o amor também é cheio de estrelas em árvores de Natal. Mesmo quando não é Natal.


Eu demorei alguns anos para descobrir que o trovão nunca vai me ferir. Mas os meus medos, sim, esses são capazes de machucar bastante. Mesmo quando se tenta proteger. Aliás: um dia eu descobri que uma capa de chuva, um cobertor, e um abraço protegem de forma muito eficiente, mas de forma diferente. Um cobertor na chuva, não vai lá ser muito últil.

Um abraço no cobertor, talvez. Mas aí você não vai estar precisando de mais nada.

Eu demorei anos para descobrir que você não era a pessoa certa pra mim. Mas se um dia você disser que eu não fui a pessoa certa para você, eu vou ficar triste. Por sinal, também demorei anos para perceber que magoar dói muito menos do que ser magoado. ? E dizer o contrário é uma forma de nos fazer carregar uma culpa.

O que no fundo também significa: agir de um modo certo.

Demorei anos para descobrir que não fazer com os outros o que não gostaria que fizessem com você funciona. Mas fazer aos outros o que gostaria que fizessem comigo pode ser tão eficiente quanto.

Eu demorei anos para notar que dor de saudade passa. o que não significa que a saudade passou.

Eu demorei anos para descobrir que conselho é muito difícil de ser dado. Às vezes ele surge de um pedido de socorro tão grande, que quem fica perdido é você. E não adianta falar muito. Algumas coisas a gente só descobre sozinho mesmo. ( e quando descobrirmos isso, aí sim, seremos bons conselheiros)


Demorei anos para perceber que chegar em algum lugar requer um esforço grande. É como subir ao décimo quinto andar, usando a escada. Dia sim, dia não. E se isso pareceu clichê ou auto-ajuda, lembrei que também descobri que nos momentos mais difíceis da vida também recorremos a clichês.

Não é que livro de auto-ajuda não seja eficiente. Mas tylenol também não funciona quando não estou sentindo dor.

Demorei anos para descobrir que um coracão vazio não implica em um lugar vago. Sabe quando no cinema a cadeira está vazia, mais alguém só foi ali e volta já?

Parabéns, você acaba de descobrir um pouco sobre seu coração. Também demorei anos para descobrir que solidão tem muito mais a ver com um lugar lotado com música alta do que um final de tarde de domingo silencioso.

E falando em coração, eu demorei anos para perceber que esquecer uma paixão só é difícil quanto a gente esquece de nós mesmos. E que não existe remédio para dor de amor. Mas alegria quando vem, mesmo em doses pequenas, é capaz de fazer um bem enorme ao coração. Aí também descobri que é na tristeza que entendemos os pequenos prazeres da vida.

Um dia descobri que, muitas vezes, para se encontrar, é preciso deixar tudo para trás. Aí você descobre onde estão os pingo dos is que você nunca colocou. Mas infelizmente, não descobre onde estão as tampas das canetas bics.

Tudo bem. Isso numa terapia seria irrelevante.

Eu demorei anos para descobrir que as pessoas mais especiais da minha vida vão estar sempre perto, mesmo longe.

Para quem ama, o céu é o mesmo. Não importa a distância.


E demorei para descobrir que ainda estou descobrindo muita coisa para simplesmente terminar esse texto com um ponto final. Reticências também signficam um final surpreendente. E geralmente, trazem alguma surpresa para o futuro.

9 comentários:

Igor Moura disse...

bonito isso, cela.

André Pinheiro disse...

Demorei anos para descobrir uma pernambucana que escrevesse tão bem e fosse feliz em traduzir um sentimento.

Você ainda vai se descobrir muito Cela, mas parece que o caminho está cada vez mais claro.

Beijo!

Mari disse...

Lindo texto!!!

Júlia disse...

Todos os dias, entro aqui e te xingo por não ter postado nada novo em tanto tempo.
Mas tudo bem. Valeu a pena esperar por um texto tão bonito, tão bem escrito, tão sensível!
Muito obrigada pelas palavras.

Gabriela disse...

Demorei, mas não foi muito, para descobrir que você me encanta com as palavras.

Ainda bem que não levei muito tempo.
De lá pra cá, continuo encantada.

Marcela Egito disse...

Júlia,

sempre vejo seus comentários. Obg :) Deixa teu email no próximo! bj

dezzamac disse...

Puxa... :` muito bonito Cela.

Fábio Buchecha disse...

Aí logo eu que achava ser a pessoa mais chata e insensível estou aqui com um sorrisão na cara comentando nesse maravilhoso texto.

Obrigado!

Emerson Silva disse...

Seu texto é lindo Marcela e acredite: suas descobertas ajudam outras pessoas a se descobrirem também. Obrigado pro compartilhar essas palavras na ordem em que você as compartilhou.

Abraços e continue descobrindo.