quarta-feira, 20 de julho de 2011

Origami

Foi com papel, cola e tesoura que Marina montou um novo coração pra ela.
Desde o último amor, nunca mais tinha sentido seu coração.
Fez terapia, acupuntura e até tentou natação. Mas nada deu certo.
No fim, chegou à conclusão que ele havia se desintegrado em pequenos pedaços que jamais poderiam ser colados.
Bem que podia ter acontecido a laser. Dizem que essas coisas modernas são mais rápidas e menos dolorosas.
Mas não. Foi estilhaçado mesmo, igual à janela quebrada por bola de futebol de menino desastrado. ( de preferência, em história em quadrinhos).
Por sinal, o menino que fez isso com seu coração tinha uma bola, um péssimo futebol e várias janelas estilhaçadas em seu currículo.
Daí, Marina, pensativa que era, fez metáfora pro coração:
A falta de talento com janelas deve significa falta de talento com coracões.
Mas tudo bem. Sorte dela que podia fazer aula de artes e brincar de cola, papel e tesoura.
Há quem diz que um coração partido nunca mais volta a ser o mesmo.
Já a menina preferia pensar que não tinha um coracão partido: e sim um coracão repartido em vários novos prazeres que foi obrigada a descobrir.
Afinal, ela precisava de alguma distração pra sentir menos dor.
Foi assim, por exemplo, que descobriu o fim de tarde no telhado. Ou descobriu que o brilho da maçã argentina no escuro, tinha um efeito lindo numa foto com flash.
Parecia um novo planeta. Parecia mais uma descoberta da menina de novos prazeres. Aliás, a própria aula de artes era um novo prazer. Recortar e colar coração também.
O que a menina ainda não conseguia descobrir era como poderia fazer um coração de papel bater.
Pensou, pensou.

E não teve nenhuma idéia, além de vários papéis em branco descartados na pequena lixeira do seu quarto.

Tentou recortar e colar um tambor. Mas ele era mais silencioso que a casa da sua avó de madrugada.

Nada parecia dar certo. No fim de tudo, resolveu se conformar com seu novo coração de papel com tambor silencioso. Pelo menos assim, ninguém podia se escutar.
E ela poderia fazer o que mais gosta: se esconder.

Até que um dia, numa dessas aulas de artes divertidas, um menino fofo pediu o coração de papel. E mal sabendo pra que servia, fez a pergunta mais ingênua e doce do mundo:
“Posso escrever meu nome nesse coração? É pra testar a caneta”.

Bom, parece que a caneta era eficiente. Porque até hoje, o coração de Marina bateu mais forte.

(e o menino escutou).

3 comentários:

Wyllyta Izidório disse...

"Desde o último amor, nunca mais tinha sentido seu coração"...

Isso é lindo demais!

dezzamac disse...

Lindo ^^

Laura Reis disse...

que coisa linda!